Passa-tempo
Era um dia de garoa. Um daqueles dias em que mesmo que o sol brilhe por um relance, o mundo ainda parece envolto em sombras numa tênue paleta cinza. Poças de água refletem o céu branco e se distorcem com o vento frio e cortante. Alguns poucos carros indo e vindo, criando um ligeiro movimento em uma paisagem inerte e silenciosa. Mas o silêncio é lentamente interrompido por um gradativo crescer de vozes. Vozes provindas de uma imagem familiar, facilmente reconhecível. Um grupo de crianças conversavam e riam de maneira despretensiosa, desfrutando da ingenuidade e ignorância únicas que apenas a infância pode conceder. Era fim do período de aula matutino e, como de costume, o grupo se fazia companhia no trajeto de volta a suas casas. Mas não antes de realizar o quase ritualístico momento de comer guloseimas e tomar refrigerante após a aula.
As crianças adentraram no mercado do bairro, um elemento intrínseco da paisagem e de suas memórias, localizado no trajeto diário que percorriam. Enquanto os adultos se apressavam para escapar da chuva, o mercado parecia deserto. O grupo de maneira inconsciente adentrou no estabelecimento e foram em busca do que procuravam. Todos exceto um único menino curioso de olhar atento. Ele notou algo diferente, peculiar e chamativo. Próximo à saída para o estacionamento, uma máquina de garra de ursinhos de pelúcia reluzia, radiante e tentadora, cheia de possibilidades.
Intrigado, o menino decidiu tentar a sorte e se afastou de seus amigos, dizendo que logo os encontraria. Pegou algumas moedas que havia separado para o lanche e as inseriu na máquina. Primeiro uma, depois outra e em seguida mais uma. Cada moeda inserida parecia um gole de água irrigando uma garganta seca, abrindo o apetite para a conquista próxima.
Nos primeiros instantes, a máquina começou a emitir uma música alegre que acompanhava o movimento da garra. A garra percorria o espaço longitudinal e latitudinalmente. Os olhos do menino eram rápidos como suas mãos, e seu alvo já estava sob sua mira. Mas conforme a garra se mexia algo estranho aconteceu. A máquina começou a emitir sons estranhos de ferro retorcido, como se estivesse lutando para funcionar. Logo a música foi substituída por um som agudo e metálico. O menino ficou bastante desconfortável e por um instante se distraiu. E esse instante foi o suficiente para que ele errasse e perdesse a tentativa.
Um sentimento de frustração o consumiu, afinal, sequer havia sido sua culpa o fracasso da tentativa e talvez aquela fosse apenas uma máquina velha. Mas mesmo assim decidiu tentar outra vez, sacrificando suas últimas moedas e abrindo mão do ritualístico lanche diário em troca de sua última tentativa.
Primeiro uma, depois outra e em seguida mais uma. As moedas adentraram as entranhas da máquina e a música começou novamente. O menino se posicionou com pés firmes no solo e mãos ligeiras nos controles. A garra iniciou seu movimento e o alvo novamente em sua mira.
O objetivo estava próximo, mas então novamente o som estranho começou. Era o mesmo desconforto de antes, mas com maior intensidade. Uma intensidade que gradativamente tornou o ruído insuportavelmente intenso e nauseante. Sua mente foi tomada por imagens de órgãos humanos se retorcendo, contraindo e expandindo. Os sons e imagens dos órgãos se mexendo era nojento a ponto de que, mesmo de barriga vazia, o menino começou a vomitar todo o líquido biliar sobre si mesmo. Ele estava assustado, apavorado, mas não conseguia se mexer. Suas mãos permaneciam coladas nos controles da máquina, seus pés firmes como estacas no solo e seus olhos vidrados no movimento da garra, que agora parecia se mover com autonomia própria, indo e vindo como se zombasse dele.
O som de ferro retorcido já era indistinguível do som de digestão que a máquina emitia. E antes que pudesse fazer qualquer coisa a respeito, a própria máquina começou a se contorcer e revirar, encarando o menino com fome e malícia. Seus controles viraram rolos trituradores de carne que o puxaram pelas mãos numa dor agonizante. Ele era incapaz de gritar ou de pedir por ajuda. Estava paralizado e sequer conseguia olhar para os lados. Primeiro um, depois outro e em seguida mais um. Cada osso, órgão, tecido e peça de roupa foi sugado e triturado para dentro do maquinário que agora vagamente lembrava o instrumento de entretenimento que era momentos antes. Em questão de segundos, o que era havia deixado de ser e nada de humano havia sobrado. E mais alguns segundos foram necessárias para que a máquina voltasse a sua forma original, reluzente e mais tentadora do que antes.
Quanto ao menino, ele foi aproveitado por inteiro. Aquilo que não serviu para nutrir as engrenagens daquele horror indescritível foi utilizado para confeccionar os tentadores ursinhos. Cada unha, fio de cabelo e malha de roupa foi processado, digerido e reconstituído para dar vida aos olhos dos bichinhos e brilho aos seus pelos.
Talvez fosse melhor ter comprado uma bolacha passa-tempo.
Mark Jones Jr.
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