Taberna ou Taverna?



Sábado, uma e meia da manhã. Fechei o restaurante e vim a pé. Ajudante de cozinha é sempre essa merda. Chega mais cedo que todo mundo e sai por último. Bom, agora eu só quero isso. Ficar largado no sofá com o PS4 ligado, Spotfy no Laptop e o celular fritando no face e no insta. Bora se livrar do marasmo. Afff, só perfis bizarros e tediantes. Não chamam atenção de ninguém. Há, lembrei. Deixa eu ver no Insta aquele post legal de história medieval. Bacana! Vou postar alguma coisa aqui pros caras. Já sei! Vou postar a história daquela fada safada. Pois é, já passou mais de meia hora e ninguém curtiu. Opá! já tava na hora. Uma curtida e um comentário. 

“Olá, muito legal seu post”. Acesso nosso site: www.tabernamedieval.com”.

Vamo lá mano, deixa eu ver o site desses caras. Bora digitar:

www.tavernamedieval.com.”

E ai? Entra ou não? Eitá porra. O link caiu num restaurante medieval: 

“Conheça nossa especialidade: o maravilhoso hamburguer gourmet.” 

Puta que pariu, essa hora? O que é que eu vou querer fazer num site de hamburguer gourmet uma e meia da manhã mano? Nem sei onde fica. Isso deve tá uns cem quilometros daqui. Não dá prá pedir delivery. Bom, vamo mexe nesse monte de aba. O que é esse tal: “clique aqui para lutar”?. Pelo menos alguma coisa difrente aqui. Deve ser chat. Vamos ver em que tipo de app fulero funciona o joguinho. 

Cliquei, cliquei. 

Vixi, a tela embranqueceu. Deve ser vírus essa joça. E agora mano? Então sério isso? Vai ficar nesse prata brilhante? Tá ofuscando minha vista. Que merda. Prá que fazer uma resolução tão pesada. Vai travar e nem vai abrir. Afff, que exagero. Um século pra carregar e agora o prata ficou roxo. 


Já sei. Vai começar a sair aquelas letrinhas pesadas uma por uma, credo. Que várzea. Nossa, tô ficando com tontura. 

Tá dando sono. Afff, não consigo desafixar a tela. Nossa é hipnotizante, contagiante, é…. 

Que loco isso! Fechei o olho e apaguei. Vixi, vim parar na porra da taverna. Nossa, decoração super chique. Tudo em mogno e mármore carrara. Mesas polidas e envernizadas. Holofotes de led imitando tocha. Taverna de cavaleiro pobre isso aqui não é. Ai ai ai, isso aqui só pode ser mais uma das viagens. Tô dormindo acordado de novo. 

- Não tá não babaca! Aqui o menu é você. 

Vlammm!!!! 

Filho da puta! É sério que esse cara tentou me acertar com um cutelo de açougue?

- Vem cá meu hamburguer!!!!! 

- Vai corre mané. Sonho de merda. Para com isso monstrão.

- Afff. Mais essa. Sonhar que virei matéria prima de hamburguer gourmet.
- Arrfff, arrfff, arrfff... Me livrei do xarope. Nossa que sonho viajado. O mano é igualzinho o Jason, mas gordão prá caralho. Nossa aquilo ali é um Jason gordão. Mais redondo que um barril de vinho. Vixi, olha o macacão branco com bolotas verdes e a máscara de cozinheiro. 

Afff, tudo bem. Daqui a pouco eu acordo com o barulho da Netflix. E aquela mina ali, quem será?

- Oi tudo bem com você moça? também tão se escondendo do Jason gordão? 
- Até que enfim. Tava demorando aparecer a gata do meu sonho :)

- Cara isso aqui não é sonho! Tem quatro desses filhos da puta bizarros tentando fazer picadinho da gente. Isso aqui não é brincadeira. A coisa é real!

- Olha moça eu tô sonhando, tá legal? Mas se você acha que isso é real, deve ter bebido ou usado droga enquanto sonha. Vê se dá um tempo, moça. Quatro Jason gordões picadores de gente prá fazer hambrguer gourmet? Afff que coisa piégas.

- Lá vem mais dois apavorados.

- Vamos, correr pessoal. Tem um que tá vindo aí.

- É, tô reparando que tem muita gente aqui sonhando o mesmo sonho. 

- Isso aqui não é sonho cara. Isso aqui é uma realidade paralela. Todo mundo que clica naquele link maldito vem parar aqui.

- Ok mano. Vamo imaginar que clicamos naquele link bizarro e estamos todos aqui. Tá bom. Então, recapitulando: Eu tô correndo junto com essa mina e mais dois babacas com cara de gamers, dentro de um restaurante especializado em hamburguer gourmet. Estamos fugindo de quatro criaturas bizarras que parecem o Jason só que gordo, e que querem picar a gente prá fazer hamburguer. Beleza.

- A gente só queria fazer um pedido, aí clicamos nesse link maldito…

- Eu sei. Eu também apertei a porra do link para jogar aí acabei dormindo e tô sonhando com essa porra toda.

- Mas acontece que não é…. Vluppp!!!!!

- Eita porra!!! acertou a cabeça dele. Corre, corre, corre!!!! 

- Nossa, um a menos agora, bora correr.

- Esconde aqui pessoal, vamos ficar aqui atrás.

- Olha lá. O Jason gordão tá desossando o coitado, como se fosse um frango.

- Putz!!! Que cheiro de merda.

- Pessoal, sonho não tem cheiro.

- Bom, agora tá ficando bizarro de vez. 

- Vixi olha as vísceras e os membros. Ele tá jogando tudo pro lado.

- Na boa, o sangue dessas vísceras tá fedendo de verdade. 

- Afff, to começando achar que isso aqui não é coisa de sonho não. Tá me lembrando quando fui faxineiro no IML. (Mano, deve ser registro do meu inconsciente). - Só quem já sentiu o fedor de sangue quente e víscera humana reconhece esse cheiro maldito.

- O jeito vai ser rastejar, tem mais dois circulando.

- Você viu como pegaram o cara? Montou nele e cravou o facão no peito! Desossou o coitado como um frango. O barulho dos ossos estralando ecoou no meu peito, meu deus isso aqui é real!

- O gordão balançou ele prá lá e prá cá prá quebrar as costelas. 

- Coisas de sonho pesado amigos. Relaxem, daqui a pouco a gente acorda. 

- Será mesmo? Eu tô achando isso aqui … Cráááá!!!!!

- Háááá!!!!!!!

- Aí meu deus pegou ele, aqui tem outro…. Huuug! !!Kluuuuunk!!!!!

- Ai meu deus, me ajuda cara, me ajuda… Voshhhh!!!!

- Puta que pariu, sai prá lá maldito. Tá bom então! Se é para virar pesadelo, vem pra cima seus bosta. Vai, parte prá cima. Ué pararam porquê? Tão com medo agora? 

- Boa noite senhor. Seja bem vindo ao nosso estabelecimento.

- Affff, já era hora de aparecer o gerente do sonho bizarro.

- Que sonho do caralho. Eu não vou virar essa merda de hamburguer. Vou tratar é de acordar e tomar uma cerveja. Porra, porquê eu não acordo? Tô com aquele calafrio de pesadelo. Despenco do subconsciente para a sair do sonho mas não saio. Eu caio mas não volto, não acordo. Só sinto esse calafrio.

- Aí gerente. Você tá bem vestido. Terno preto, gravata vermelha, sapato bicolor vermelho e preto. Típico gerente de sonho bizarro.
- Então amigo, esse sua cara magra vai ficar me olhando ou vai me explicar onde é que eu tô?

- Não adianta resistir meu caro senhor. Não irá voltar e nem acordar disso que o senhor descreve como sonho. Os outros pobres internautas são agora matéria prima para o nosso hamburguer, mas percebo que o senhor é diferente. O senhor tem coragem. Acredito que o senhor entendeu o link. “Clique aqui para jogar”. Seus amigos foram medrosos e não jogaram, apenas fugiram, como quem foge do bicho papão. 

- Amigão. Meu caro senhor. Eu nem queria entrar nessa bosta de site. Eu só queria acessar a página sobre literatura medieval. 

- Ainda que mal lhe pergunte, caro senhor. O que o senhor digitou? 

- Digitei www.tavernamedieval.com

- Há, há, há. Me perdoe a risa. Ora, ora. Como sempre. Muita gente vêm parar aqui pelo mesmo engano: Taverna ou Taberna? Eis a questão!

- “b” ou “v”? Como as pessoas mudam seu destino por conta de uma singela letrinha. Peculiar, não acha?

- Já percebi que um “v ou um “b” fazem toda diferança na vida da gente meu caro senhor. Toda a diferença... Mas, sinto em dizê-lo. Agora, a não ser que jogue o jogo o senhor não poderá sair daqui. Se quiser, pode continuar fugindo mas, saiba que uma hora vai cansar.

- Amigo, minha vida é jogar. Você acha que vou ficar a noite inteira aqui fugindo desses Jasons banhentos? Vamo acabar logo com isso.

- Muito bem...

- Mais essa agora? (Botão reluscende “aperte aqui para jogar”). É sério isso?

- É só clicar para começarmos, meu jovem. 

Nem pensei duas vezes. Sou bom de jogo e bom de briga. Se tiver que virar materia prima de hamburguer gourmet vai ser lutando. Bora clicar.

Agora a sala virou uma arena medieval. Até que é maneiro. Olha só essas mesas refinadas e o pessoal em volta. Todos bem vestidos com as mesas cheias de deliciosos haburgueres gourmet, acompanhados de sucos, cervejas e refrigerantes. Bebidas com tons avermelhados. Nem preciso imaginar do que deve ser feito esse sucos. Lá estão os quatro Jason gordões se juntando no canto. Acho que a luta vai começar. Pois é. Vamos ver a quantas anda meu jiujitsu e o meu aikido. Faz mais de 20 anos que parei, mas a técnica não, a gente não esquece. É como andar de Bicicleta. Eu consigo.

- Meu caro senhor, as armas estão à disposição naquela parede. O senhor pode se servir à vontade. Meus cozinheiros preferem seus artefatos de cozinha. Prepare-se pois a luta vai começar.

- Só espera um pouquinho meu amigo. 

(Aeee escritor! Vou mudar o tempo da narrativa porque eu não vou dar conta de ficar matando esses bichos e também narrar a história. Prá um cara que sóqueria jogar um video game eu já tô com muito problema prá essa noite.)

Eu me dirijo a parede, desenrosco um sabre, uma mini foice e visto um corpete de couro. As facas de cozinha deslizam no couro, fica mais difícil de me furar. Sou osso duro de roer. Eu olho um casal distinto sentado na mesa. Me admiriam com um olhar sarcástico de “boa sorte, mas queremos ver seu sangue”. Nem penso muito nisso. Prá me aquecer já desfiro logo duas cabeçadas na mesa deles, marcando a toalha de renda branca com o melado vermelhão da minha testa ensaguentada. Eu também tenho meus caprichos. Não entro em briga sem antes sangrar que é para o stresse subir e a adrenalina ficar a milhão. Mais uma coisinha. Antes de uma boa briga me concentro e começo entonar na cabeça o ritmo de Orgamastron, adoro esse mantra “I’m the one orgasmatron"... Mas não é a versão nutella do sepultura. Tô falando a versão original, do Motorhead, com muito mais cadência e bem mais sinistra. Briga boa prá mim só com esse fundo musical. Começo o riff na minha cabeça. Não sinto mais nada, só adrenalina por todo corpo corroendo meus nervos. 

Repito de novo e baixinho a primeira frase. “I am the one. Orgamastron”. PORRA! QUE VENHAM OS FILHOS DA PUTA!

Eles caminham em minha direção. São lentos mas fortes. Eu sou ágil e certeiro, vamos ver que bicho vai dar. Disparo na direção do primeiro, pulo em seu peito e enterro a mini foice a sua cabeça. Miolos voam e ele fica tonto. Desfiro um golpe certeiro de sabre e corto a mão do segundo. Os outros dois se espreitam, intrigados com a minha rapidez. 

Vou para cima deles. 

O terceiro leva uma cutucada do sabre em seu peito, sente o golpe mas não cai. Preciso ser mais inteligente para matar esses porras. 

O quarto Jason gordo me cerca e avança com uma faca em punho. Largo minhas armas, agarro a mão que porta a faca, grudo em seu colarinho e aplico uma queda. Caio por cima, cravando a faca na garganta. Esse acusou o golpe e ficou deitado. Os outros retornam em minha direção. Rapidamente me aposso da mini foice e grudo no pescoço do segundo Jason que acabei de ferir. Minha foice escorrega e rasga toda a garganta. Uma gosma preta que nem penso em chamar de sangue escorre pelo avental. Retiro a foice somente quando sinto a lâmina encostar no osso da cervival. 

Pronto. Agora é só girar que teremos aqui um pescocinho arrancado do corpo. Agarro a cabeça da criatura e me dirigo para o outro lado do salão. 

Os outros três param e olham. Acusam a morte de um deles. Percebo que as maricas têm sentimento.

Pouco me importa, já sei o caminho das pedras. Faço o mesmo movimento rápido. Desta vez não com tanta sorte. Acerto o Jason gordão que está na frente mas o Jason gordão que vem logo atrás me crava a faca de açougueiro na coxa. A mini foice ficou entalada na sua cabeça. Me esquivo e vou em direção ao sabre caído no chão. Sinto que a faca está bem cravada na minha coxa. Não sangra muito e não posso arrancá-la, pois não quero romper a artéria ou algum ligamento. 

A perna arrasta mas ainda tem mobilidade. A adrenalina do momento estanca minha dor. O ritmo de Orgamastron está fixo em minha mente. 

Só sei o que é ódio, não sei o que é dor. Cadencio a luta para poder ser mais preciso e poupar energia. Os três Jasons gordões restantes me cercam. Também estão debilitados e mais lentos que antes. Se movem em minha direção. 

O primeiro me ataca com um golpe de facão. Me esquivo e coordeno um golpe preciso e cirurgico no pulso da criatura. A mão que segura o facão se desprende do corpo e cai no chão. Agora o primeiro Jason Gordão está ferido e sem uma das mãos, por isso não perdoo e cravo a lâmina em seu pescoço. O corte é profundo mas não decepa a cabeça. A criatura está tonta mas ainda sobrevive. 

O segundo me ataca e acerta o cutelo em meu ombro. Apesar da proteção do corpete de couro o golpe atinge minha clavícula. Não dá para vacilar, tenho que ser decidido. Agarro no mesmo braço que me atingiu e engato um armlock voador no cavalo. O golpe é preciso e sinto o cotovelo da criatura estralar, rompendo entre minhas pernas. Dou vários chutes e coronhadas de sabre na sua cabeça. Ferimentos insuficientes para esfacelar a caixa craniana e mata-lo. 

Me desvencilho. Pelo menos a criatura está inutilizada. Agora resta o último. O mais encorpado. 

Só tem um ferimento no peito. Reparo que as pessoas nas mesas se agitam. Ficam atentas e viradas para o salão. Compraram o show e querem ver o desfecho da peleja. Somos a atração da noite. Um jantar sanguinário e medieval, que romântico. Uma mistura de coliseu com Drink no Inferno, que sarcástico. 

Eu abaixo a guarda do sabre. Espero a criatura atacar. Ela vem em minha direção. Espero e esquivo com precisão do golpe e travo meu sabre nas suas pernas. A criatura cai. Faço um último esforço na perna esfaqueada. Pulo e cravo o sabre na nuca do último Jason gordão. 

Funcionou. 

A coisa apaga e fica ali estirada como um saco de bosta. Vou na direção do Jason gordão sem mão. Está ferido, cambaleando para lá e para cá. 

Busco a mini foice. Caminho lentamente em sua direção. 

A criatura, desajeitada, tenta me golpear com o facão. Me esquivo com facilidade. Golpeio sua perna com o sabre. A criatura cai ajoelhada. Cravo meu sabre na sua nuca. O sabre não cravou por inteiro e a criatura estribucha. 

Pego a mini foice. Subo em suas costas. Atravesso com precisão a extensão do pescoço. Quando sinto a cervical na foice, torço para arrancar. 

Agora são duas cabeças soltas no salão. Pego uma em cada mão. Me dirjo ao gerente e jogo aos seus pés e o digo:

- Coloca na sua sopa!

- Não posso deixar de parabenizá-lo caro senhor. É a primeira vez que alguém zera nosso jogo. Devo lhe dizer: Estou impressionado. 
- Como prêmio você acordará e não vai se lembrar do que aconteceu. Esse link nunca mais aparecerá em seu celular. 
- Mas, lembre-se, da próxima vez, atente-se ao “b” ou “v”. As letras podem mudar nosso destino.

O gerente sorri e estende a mão, se despedindo.

Fico parado. Começo a pensar. Olho à minha volta. Ainda sinto o corpo efervescendo de adrenalina. A respiração ofegante. E a sede de matar me reveste. Proponho ao gerente:

- Agora que seus cozinheiros bizarros estão mortos, você vai precisar de gente nova nessa cozinha.

- Uh lá lá. Se o senhor quiser a cozinha é sua, meu caro senhor.

Amanhece e a sala lá de casa ainda está vazia. O aparelhos continuam ligados. O jogo do PS4 já travou. 
O Spotify ainda toca no laptop. O celular está apagado, sem bateria. 

Parece que não vou mais voltar. Me perpetuei neste lugar. Agora uso avental com bolotas verdes e máscara de cozinheiro. 

Espero internautas desavisados digitarem Taverna ao invés de Taberna, para virem aqui jogar comigo.

Mark Jones

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