Passos

 Passos ao pé da janela...

Passos molhados, acompanhados pelo som da grama sendo amassada...
Passos pesados...
E então, uma voz familiar. A voz da minha avó me chamando:

Mah!

Era assim que ela me chamava. Tanto eu como meus irmãos.

Mah, venha jantar.

Jantar? Indaguei-me. A frase era absurda. Já era madrugada. E aquela... definitivamente não era minha avó.

O silêncio que se seguiu foi anormal, quase palpável. Então, um estrondo. A janela tremendo sob uma tentativa violenta — e frustrada — de ser aberta.

Vidro e madeira vibraram, estremecendo em uma sequência irregular, até que cessaram abruptamente. Um grunhido de frustração. E então, novamente, passos. Passos molhados e pesados, afastando-se na escuridão.

Meu coração disparou. Minhas pernas fraquejaram. Minha mente ficou turva. Mas eu não podia me deixar paralisar.

Afastando o torpor, levantei num impulso e corri. Precisava checar a porta da frente. Aquela maldita fechadura... Por que demorei tanto para consertá-la?

O corredor parecia infinito. Como naqueles sonhos onde corremos sem sair do lugar, cada segundo se arrastava, dilatado, sufocante. Mas então, num instante, o tempo colapsou sobre si mesmo. Minha mão tocou a maçaneta, e com um golpe de ombro joguei todo o peso contra a porta para garantir que estava — e continuaria — fechada.

Meus dedos trêmulos deslizaram até a segunda fechadura. A que ainda funcionava.

Trancada.

O alívio veio, mas durou pouco. Muito pouco.

Um frio subiu pela minha espinha, do sacro até a nuca, arrepiando cada fio de cabelo. E então, ouvi.

Uma nova voz. Familiar.

A voz da minha namorada.

Aos prantos.

Amor!!! — O desespero na voz dela me fez estremecer. — Por favor, me deixe entrar! Não me deixe aqui fora!

Fechei os olhos, respirei fundo. Apenas ignorei.

Eu sabia que aquela... não era a minha namorada.

O silêncio pesou no ar.

Então, os passos voltaram.

Pesados. Molhados. Aproximando-se cada vez mais.

E, por fim, a voz que me assombra até hoje.

A voz que me faz mudar de cidade a cada três meses.

A voz que me condenou a uma vida de paranoia e medo.

eU VoU dEvOrAr SuUuuA aLLmaA e eSfoLarr sUua pElee VIivoo…

Mark Jones Jr.

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